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Dr.
Grandão página
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O
saber pode deixar marcas em quem o detém.
Quando
o saber é hegemônico, como dos médicos, essas marcas
são mais pronunciadas, determinando até uma postura
diferenciada. Por isso, dentro de um hospital, principalmente,
é fácil reconhecer um médico, mesmo que não de branco,
andando pelos corredores. É um andar firme, pisando
nos calcanhares; cabeça erguida, braços balouçando em
atitude quase marcial. Os auditores costumam adotar
essa postura, ou até forçá-la, quando visitam algum
hospital pela primeira vez.
Quanto
mais alta a pessoa, maior a altivez e maior a proximidade
com um porte majestoso. Muitos se aproximam da majestade,
mas ninguém tanto quanto o Prof. Adib Jatene, com seus
quase dois metros e coluna ereta.
Quando na sala de cirurgia, sua altura e sua postura
costumam provocar correria de circulantes à procura
de estrados para os auxiliares não tão altos. Mesa cirúrgica
não deve estar baixa, e os estradinhos para os pés passam
a ser mais que necessários para os relativamente "baixinhos".
Mas o Prof. Adib mantém essa postura em qualquer circunstancia.
Mesmo em outros campos.
É
porque ele tem uma fazenda no interior de São Paulo,
em Itajobi, onde costuma ir nos feriados prolongados.
Mas nem lá deixa de ser magnífico. Nem lá deixa de se
preocupar com quem ele trabalha.
Apenas muda de roupa e meio de transporte. Ali se despoja
do formal e se veste de calça jeans, botas, camisa esporte,
cinturão largo e até chapelão de boiadeiro que, que
ao contrário do instrumental cirúrgico, quanto mais
usado, melhor!
Ali,
num domingo de carnaval, feriado gordo, dia chuvoso,
subiu em sua caminhonete enlameada para ir fazer uma
visita a sua cozinheira, que estava internada, com problemas
clínicos, no Hospital Universitário Emílio Carlos, da
Faculdade de Catanduva, a cerca de 35 Km de sua fazenda.
Eram
os idos de 91 ou 92, quase meio-dia. Ao parar na portaria
e dizer sua intenção, foi informado pelo encarregado
da cancela:
-O
horário de visitas só 16 horas.
Como
não podia deixar para mais tarde, Jatene resolveu contar
a sua condição de médico. O porteiro olhou para o chapelão,
a camisa xadrez e, mantendo-se um pouco distante da
lama recente que emporcalhava o veículo:
-Conta
outra amigo. Aqui todo mundo usa essas desculpas; visita
só às 4!
Adib
estacionou a S10 e, calmamente, desceu para conversar.
Quando surgiram as botas, o jeans e o cinturão de fivela
com cabeça de boi em camafeu, tudo levava para uma situação
mais complicada. Lembrando-se disso, o professor teve
que apelar mais ainda e já que era para "contar outra",
além de médico, era o atual Ministro da Saúde.
-Pô
grandão. Esse ninguém tinha usado até hoje. Já disse:
só as 4, dezesseis horas, ta bom?
Sem
perder a paciência, o boiadeiro de chapelão meio sujo
pediu que o porteiro se comunicasse com o encarregado
pelo hospital. Àquela hora e naquele dia, só a enfermeira
chefe. Esta, ouvindo as explanações e, principalmente
a descrição do porte do visitante, não pareceu tão incrédula:
-Pergunte
a ele qual o seu nome, se for Adib Domingos Jatene,
você pisou na bola!
Preste
atenção noDomingos. Desligando o interfone o porteiro
voltou-se:
-Ô
grand... Pensando melhor, resolveu baixar o tom: -Meu
senhor, qual é a sua graça? O nome inteiro?
-Adib
Domingos Jatene
-Me
desculpe, Sr. Ministro, mas acho que acabo de me ferrar!
E justo num domingo!!!
Lógico
que não. O doutor Grandão aí é que demonstrou toda a
sua magnitude. Visitou sua cozinheira, sem se intrometer
na conduta médica, acompanhado sempre pela enfermeira
chefe, embevecida por estar ao lado da autoridade máxima
de saúde do país. O doutor Grandão não só perdoou, como
até elogiou o profissionalismo do funcionário da portaria.
O
final foi bem feliz. Tanto, que até hoje rende boas
gargalhadas, principalmente do chefe de segurança do
hospital, aquele porteiro.
Dr. Cid Santaella
Redorat
Superintendente da Associação Hospitalar de Bauru
P.S.1: a história é verídica. Talvez um pouco
floreada como as de Homero ou Mário Prata, mas ocorreu.
P.S.2: O autor trabalhou sob o comando do Prof.
Adib em 1980, na FUNDAP-SP, em um grupo de estudos que
preparava os primórdios da teorização do atual SUS.
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